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sábado, 8 de setembro de 2018

Projeto Blue & Blues


O Projeto “Blue & Blues”, foi pensado e redigido, como uma homenagem e reconhecimento da importância do pigmento azul ao longo da história da Arte.
A minha intenção com esse projeto, foi inspirar os artistas e saber deles, qual a relação que eles mantêm com essa cor em suas obras. Quando usam tal pigmento? O que desejam transmitir?
Como curadora tenho o hábito de observar os trabalhos dos artistas, suas produções, o conjunto de suas obras. Fico encantada com muita coisa que observo, e procuro encontrar valores, trabalhos que impressionam, seja pela técnica, pela composição, pela temática, e pela verdade que transmitem. Acho que eu procuro mesmo é sentir a alma do artista quando observo seus trabalhos.
Esse sempre será um parâmetro que uso quando faço um convite a um artista para participar de um projeto.
O nome da mostra surgiu naturalmente...Azul...Blue...Blue & Blues!
Foi quando convidei para compor essa exposição, o artista visual e músico, Fernando Naviskas, que durante a abertura da exposição apresentará com Sebastian Sebastian Junior um repertório muito afinado com a proposta curatorial, que é a de tocar, emocionar, levar um pouco o visitante a um momento de introspecção e sensibilidade.
Na verdade, o “Blues” no caso de nossa mostra, foi utilizado muito mais como uma referência emocional, do que propriamente ao gênero musical. Talvez algo como, “Feeling Blue”, sentir-se um pouco melancólico. Sim, claro que essa expressão surgiu do gênero musical – “Blues”, e sua origem, com os negros americanos, descendentes de escravos africanos. As Canções de Trabalho nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos, ou nos cultos, onde os escravos podiam cantar e dançar e expressar toda uma cultura e tradição que lhes foi retirada, ao serem trazidos como cativos para uma terra estranha e distante.
A proposta é explorar esses sentimentos e emoções mais “rebaixados”, introspectivos, mais intimistas.
Temos uma gama imensa de azul. Algo que vai desde um “azul respirável”, suave, acolhedor, de um lindo céu, de um lugar familiar e conhecido, até um azul mais profundo, mais misterioso, e porque não, mais melancólico e até mesmo depressivo.
A música durante a abertura da mostra servirá como uma ponte entre cor e sentimento, numa exposição coletiva, cuja intenção é justamente poder apresentar uma gama de técnicas, estilos e propostas, de diferentes artistas, num mesmo ambiente. Demonstrar que Arte é acima de tudo expressão criativa, e que através dessa expressão artísticas, podemos falar sobre todo e qualquer assunto, sob diferentes ângulos e perspectiva!
No entanto, é bastante desafiador conseguir coordenar tantas propostas, tantos pensamentos e ideias, que as obras transmitem, traçar um fio condutor, uma possibilidade de leitura interessante. Mas, é sempre muito compensador ao final.
Mas o projeto vai além da abertura da mostra!







Teremos ao longo de nosso período expositivo, a participação de 3 palestrantes que além do azul, falarão sobre temas importantes, como o fazer artísticos, seus desafios e superação ( por Cibele Nakamura); Um pouco da história e da evolução técnica dos mosaicos ( por Cristina Passaretti); A importância do restaurador na preservação do patrimônio artístico e cultural de uma sociedade ( por Kiki Stefani).
Como vocês podem ver, foi um projeto pensado e desenvolvido ao longo desses 4 meses, com muito amor, muita dedicação!
Espero por vocês, hoje, dia 05 de setembro, na abertura oficial da mostra Blue & Bues, assim como nas palestras e atividades que virão ao longo do mês de setembro!
Um abraço carinhoso e até!

Sandra Honors – Curadora

Produção : Carla Mourão

Realização: Banco de la Republica Oriental del Uruguay -  Espacio Uruguay

Artistas da Mostra Blue & Blues

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O Palacete Santa Helena

O Palacete Santa Helena, de propriedade de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, ex-presidente do Estado de São Paulo e recebeu esse nome em homenagem a esposa, Helena de Souza Queiróz, filha do Barão Souza Queiroz, de tradicional e rica família, de muita influência no Partido Liberal da Província de São Paulo.
O primeiro projeto do Palacete, que previa um hotel, foi substituído por escritórios e um cineteatro. que levava o mesmo nome do Palacete, e que ocupava os três primeiros andares do bloco central, e no subsolo, outra sala de cinema, o Cinemundi.
Destacava-se pelo luxo da decoração e pela modernidade das instalações
De arquitetura eclética com influência do art déco, sua decoração interna era refinada, com mármores e fina decoração. No teto do teatro, a pintura do artista italiano Adolfo Fonzaris, com um imenso painel na abóboda do edifício que ficou conhecida como “a História e a Fama do carro de Apolo. No alto, musas e outras figuras simbólicas, grupo de cupidos e a Glória, que empunhava uma coroa de louros.
Apesar de ter sido construído pela e para a elite paulistana, a localização central o transformou no ponto de encontro dos operários, que vinham dos bairros mais pobres, como o Brás e a Mooca, quando a Praça da Sé acabou sendo aproveitada como terminal de ônibus.
Ao lado dos finos salões, cafés, cinemas e do teatro, eles fundaram as sedes de seus sindicatos.
Assim, a Sé, já na virada dos anos 30, tinha se tornado um mercado do emprego.

A partir de 1935, a sala 231 foi convertida em ateliê, e o palacete abrigou um dos movimentos mais significativos da história das artes plásticas de São Paulo. 
A iniciativa partiu do filho de espanhóis Francisco Rebolo Gonsales, ex-jogador de futebol e pintor de paredes, que viria a se tornar um dos mais reconhecidos artistas do Brasil (é dele o desenho do atual distintivo do Corinthians). 
Juntamente com Rebolo, alguns se dedicaram às artes, com destaque para um grupo de pintores (vários deles originalmente ligados à construção civil) que formou o GRUPO SANTA HELENA, entre eles, Aldo Bonadei , Alfredo Volpi, Clóvis Graciano,  Fulvio Pennacchi, Humberto Rosa  Manoel Martins e Mário Zanini.
O grupo começou a se formar a partir de 1934, quando os artistas foram chegando ao Palacete Santa Helena, n° 43 (posteriormente n° 247).
O Santa Helena ruiu pelo abandono e cedeu ante o "progresso". Foi destruído para que se construísse a estação central do Metrô. 
O Palacete Santa Helena começa a ser demolido na tarde do dia 23 de outubro de 1971 pela Companhia do Metropolitano, junto com os demais edifícios da mesma quadra, com o propósito de ampliar a Praça da Sé, anexando-lhe a Praça Clóvis Bevilacqua, e possibilitar a construção das linhas Norte-Sul e Leste-Oeste do Metrô.



Consultas:
http://www.saopauloinfoco.com.br/a-cicatriz-mais-dolorida-de-sao-paulo-a-historia-do-palacete-santa-helena/
http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/aquijazsaopaulo/te0212200304.shtml

http://www.historiadealagoas.com.br/albuquerque-lins-o-alagoano-que-governou-sao-paulo.html


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O lado obscuro de Michelangelo


O National Geographic Channel veiculou um programa fascinante sobre Michelangelo, baseado especificamente na teoria do historiador da Arte, o italiano Antonio Forcellino, segundo a qual Michelangelo era um membro de um movimento de reforma informal do século XVI chamado spirituali (os espirituais).
No século XVI havia muitos conflitos entre a igreja e os protestantes, que sustentavam que o homem não necessitava de um intermediário para se relacionar com Deus e que poderia ter uma ligação direta.

Forcellino, enquanto estudava a escultura de Michelangelo, o Moisés, parte do túmulo de Júlio II, quando nota certas"anomalias" que o intrigaram.  Novas pesquisas, especialmente nos arquivos do Vaticano, levaram-no à descoberta de relação entre Michelangelo, o Cardeal Reginald Pole, o Cardeal Ercole Gonzaga, e Vittoria Colonna, uma nobre e poetisa.


O que essas pessoas tinham em comum era o desejo de reformar a Igreja Católica a partir de dentro. O mistério gira em torno das análises de Forcellino sobre a vida, algumas das mais importantes obras de Michelangelo e aquela que pode ser uma das maiores descobertas históricas de todos os tempos, a provável ligação entre o "artista divino" e as idéias que moldariam a Reforma protestante do século XVI.


Em dezoito de Fevereiro de 1564, Michelangelo Bonarotti, divino escultor, pintor e arquiteto, morre em sua casa em um dos bairros mais pobres de Roma. Na mesma noite agentes do Vaticano vão vasculhar sua oficina. Mas é tarde demais. Antes de morrer, Michelangelo reuniu todos os seus desenhos e cartas e os queimou. Dias depois seu corpo desaparece levado secretamente para Florença. A instituição que ele serviu por meio século não terá a honra de um funeral de Estado. Um historiador de arte italiano revela uma capítulo obscuro da vida de Michelangelo que a igreja católica e o próprio artista tentaram esconder durante cinco séculos. Seu envolvimento com uma sociedade clandestina, cujas ideias radicais eram punidas com a morte pela inquisição. Uma viagem seguindo numerosos símbolos e vestígios deixados em mármore para descobrir o lado obscuro de Michelangelo.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Gosto se discute? A Crítica da faculdade do Juízo, de Immanuel Kant






Na Crítica da faculdade do Juízo, de Immanuel Kant há duas afirmações , a princípio contraditórias, que assumem a forma de teses que se opõem: uma tese e uma antítese. É o que Kant denomina "antinomia do gosto".

A tese: "O juízo de gosto não se funda em conceitos, caso contrário, poderíamos disputar acerca da beleza". ( decidir por meio de demonstrações lógicas).

A antítese: " O juízo de gosto se funda em conceitos, caso contrário, não poderíamos sequer discutir a beleza."

Qual então o lugar da beleza?

É um conceito objetivo universalmente válido e necessário, ou, ao contrário, é algo subjetivo e que se funda apenas em inclinações pessoais, uma questão de âmbito privado e incomunicável?

Crítica para Kant, significa um exame do alcance e dos limites de nossos poderes cognitivos.

A "Crítica da razão Pura" fala sobre o conhecimento científico, necessário e Universal. Foi a primeira etapa do projeto sistemático de Kant visando a estabelecer a abrangência e os limites de nosso conhecimento, daquilo que podemos ou não conhecer; ou seja, trata-se de filosofia teórica voltada à teoria do conhecimento.

Em a "Crítica da razão prática", Kant analisa as condições de possibilidade para uma moral com pretensão universalista dos atos. Ele voltou-se imediatamente para moral, ou o conhecimento prático das leis que comandam as ações humanas e na capacidade que a razão tem de criar uma causa que, diferente do mundo mecânico natural, não depende de nenhuma causa anterior a ela. O ato livre não teria nenhum fator externo que o determinasse, É o fazer, pelo sentimento de dever que sou capaz de perceber e a necessidade de determinadas ações.

Em sua 3ª crítica, a "Crítica da faculdade do juízo",Kant fala sobre a possibilidade dos juízos estéticos, universais e necessários. Investiga os limites daquilo que podemos conhecer pela faculdade de julgar, que leva em consideração não apenas a razão, mas também a memória e os sentimentos.

Os enunciados de um juízo é o que é denominado, proposição ou premissa.

O juízo "a priori", é o conhecimento puro, que independe da experiência. Ele é essencial e se aplica a qualquer situação; já, o juízo "a posteriori" é dependente de uma experiência ou evidência empírica. Esses conhecimentos experimentais são os que nos fornecem sensações, conhecimentos que não podem ser separados de nossas impressões sensoriais. Mas eles não produzem juízos essenciais, que possam ser aplicados a qualquer situação.

Os juízos analíticos são aqueles em que os atributos fazem parte do próprio conceito. Por exemplo, na afirmação de que todos os corpos são extensos, a qualidade "extenso" já está contida no termo "corpo". Os juízos analíticos são típicos da tradição racionalista cartesiana, que construía a ciência com explicação dedutiva a partir de algumas verdades evidentes. Embora sejam "a priori" e possuam o mérito da indiscutibilidade, eles limitam-se à afirmações óbvias, não podendo construir a base de um conhecimento cognitivo.

Já os juízos sintéticos, mesmo que sejam fecundos em produzir novos conhecimentos, encontram em contrapartida a limitação e dependência de uma experiência concreta. Eles acrescentam predicados novos ao conceito. Mas a afirmação da existência de alguma coisa só é possível "a posteriori", ou seja, somente depois de ter passado pela experiência concreta. O predicado não é extraído do sujeito, mas pela experiência. Exemplo da afirmação de que "o corpo é pesado". Diferentemente da afirmação de que o corpo é extenso, onde o predicado está implícito no conceito "corpo", o fato de ser "pesado" não é um conhecimento subentendido no conceito, mas adquirido "a posteriori" , através da experiência. Essa afirmação "a posteriori" de que o corpo é pesado, agrega um conhecimento empírico, qual seja, o peso.Mas, a experiência é o único meio pelo qual esse conhecimento, esse predicado, pode ser obtido. Mas, para Kant, se podemos afirmar a existência de alguma coisa somente depois de ter passado pela experiência concreta, essa ciência não pode ser preditiva.

Para o filósofo, o racionalismo e o dogmatismo deram muita ênfase aos elementos apriorísticos, enquanto o empirismo , havia reduzido o conhecimento aos elementos experimentais "a posteriori".

Seria, pois necessário a formulação de uma abordagem do conhecimento, que ao mesmo tempo que tivesse certeza e universalidade dos juízos analíticos "a priori", não nos lançasse no terreno do dogmatismo. Uma abordagem híbrida, onde a sensibilidade e a fecundidade dos juízos sintéticos se somasse ao Entendimento .

Portanto, tais juízos teriam que ser conhecimento" sintético a priori", porque, uma vez suas leis estabelecidas pela observação, passam a ser universais e independentes da experiência.

A Crítica do Juízo, a terceira e última crítica de Kant, descreve dois tipos de juízos que constituem a faculdade de julgar: o determinante e o reflexionante. Os juízos reflexionantes são de dois tipos: os estéticos e os teleológicos.

Se de um lado temos um pensamento fundado em leis da razão e do entendimento, em regras que não variam de uma pessoa a outra, de uma cultura a outra, ou mesmo de uma época a outra, ou seja, um conhecimento fundado em princípios universalmente válidos e necessários, por outro lado, temos um empirismo estético não racionalista, onde ao dizer "esta rosa é bela" , traduzo apenas num juízo um senti­mento de prazer que acompanha essa contemplação.

Assim, o juízo estético é reflexionante, porque descreve aquilo que o sujeito sente. A beleza não é uma coisa nem uma propriedade das coisas. É um sentimento que é vivido no interior do sujeito e do qual este tem consciência.

O juízo estético é igualmente a expressão de um sentimento de prazer puro e desinteressado; o sentimento do belo nada tem a ver com a fa­culdade de desejar, ou com a vontade. Dizer que algo é belo é diferente de dizer que é agra­dável. Não julgo algo belo por necessidade, por um desejo de posse.
O agradável, sempre possui  alguma relação de desejo com o objeto qualificado de belo.

O prazer desinteressado significa que o sujeito que faz um julgamento estético sobre um objeto não tem nenhuma necessidade de possuir ou consumir esse objeto, ou seja, o objeto não desperta qualquer desejo no sujeito que o contempla.

Segundo Kant, para nos pronunciarmos sobre a qualidade estética de alguma coisa, para julgarmos se algo é belo ou não, devemos contemplá-lo abstraindo de nossa consideração, qualquer possí­vel utilidade, inutilidade e também , qualquer noção de moralidade. O juízo estético é radicalmente di­ferente de qualquer juízo ligado a um interesse.

Enquanto su­jeito estético acolho a livre manifestação do objeto e digo simplesmente o que sinto, o que se passa em mim. Assim, juízo de gosto é subjetivo. Contudo, este juízo pretende ser universalmente comunicável. O juízo esté­tico é subjetivamente universal, pois quando eu digo que algo é belo eu pretendo traduzir um sentimento que se verifica em mim, mas que também deve ocorrer nos outros sujeitos, pois meu juízo não se baseia em inclinações ou interesses particulares e pessoais. Assim, acredito que posso julgar-me no di­reito de que os outros reconheçam também a beleza do objeto e experimentem o tipo de satisfação que eu sinto.

Quando contemplo uma paisagem e sinto um prazer puro e desinteressado nessa con­templação, meu entendimento traduz essa experiência formulando um juízo: "Esta paisagem é bela."O conceito de beleza unicamente exprime um sentimento, mas não o explica, porque se isso acontecesse a experiência já não seria estética mas de conhecimento.  A universalidade do juízo acerca da beleza não é baseado em conceitos. Ou seja, quando alguém propõe compartilhar o sentimento de beleza, não pretende convencer os outros por meio da subsunção desse objeto (singular) em um conceito (universal.)

 Nas palavras de Pedro Costa Rego,temos o direito de candidatar nossa avaliação estética a um estatuto de juízo universalmente válido. Há um fundamento no sujeito para isso. Mas, jamais deixará o belo de ser uma universalidade subjetiva, uma universalidade meramente reivindicada.

Como o juízo estético tem de ser ex­pressão de um prazer puro ou desinteressado, que não submete o objeto a nenhum desejo, interesse ou fim, também a sua finalidade só pode ser uma "finalidade sem fim". O valor-em-si do juízo estético pressupõe um prazer desinteressado, portanto não finalista.

 E finalizando com as palavras de Luc Ferry: Homo aestheticus: a invenção do gosto na era democrática, “A solução da antinomia do gosto encontra aqui sua explicação e seu significado. Contrariamente ao que afirma o racionalismo clássico, o juízo de gosto não se fundamenta em conceitos (regras) determinados: portanto, torna-se impossível ‘disputar’ acerca dele como se tratasse de um juízo de conhecimento científico. No entanto, ele não se limita a remeter à pura subjetividade empírica do sentimento, porque se baseia na presença de um objeto, que se é belo (...), desperta uma ideia necessária da razão que é, enquanto tal, comum à humanidade. Portanto, é em referência a essa ideia determinada (..) que é possível ‘discutir’ o gosto e ampliar a esfera da subjetividade pura para visar uma partilha não dogmática da experiência estética com outrem enquanto outro homem”



Fontes:

Kant- Crítica da Faculdade do Juízo 
Kant - Crítica da Razão Pura

Georges Pascal - Compreender Kant

Pedro Costa Rego - Palestra proferida no Seminário Internacional do Vale do Rio Doce

Textos diversos ( Internet), anotações de aulas e resumos.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Masaccio



Masaccio:

Tomaso di Giovanni, conhecido como Masaccio (1401 – 1428) foi um grande pintor renacentista.

Um artista revolucionário por suas novas concepções de espaço, onde figuras intensamente modeladas pelo "claro-escuro", dotadas de volume e de realismo, ocupam igualmente um espaço real, concreto e mensurável. Razão pela qual, Masaccio ocupa um lugar decisivo na história da arte ocidental.

A Trindade é um dos mais famosos afrescos de Masaccio e encontra-se na igreja de Santa Maria Novella , em Florença. A obra, provavelmente executada em 1427, representa a coquista de sua plena maturidade artística, realizada pouco antes de sua morte prematura em Roma, em 1428.

O tema da pintura é a Santíssima Trindade: Deus, o Espírito Santo - na forma de uma pomba e Cristo. É visível o seu sofrimento e ao mesmo tempo é impressionante a representação de seu corpo e de sua gravidade , preso na cruz. Ao lado da cruz, Virgem Maria, retratada como uma mulher madura, apontando para Cristo, a salvação dos homens; do outro lado encontra-se João Batista. Fora do espaço sagrado, num plano mais abaixo , de joelhos, os patronos. ( os que pagaram ao pintor para realização da obra); os doadores como testemunhas da crucificação.

O artista aplica as regras da perspectiva científica na pintura . Ficamos imediatamente fascinados pela incrível profundidade espacial da arquitetura, numa visão tridimensional nunca antes realizada sobre uma superfície plana, tal como uma parede .

Ele utilizou várias técnicas de perspectiva para dar ao espectador a ilusão de que a cena era real. Quando Masaccio pintou o afresco , tamanha era a perfeição do uso da perspectiva linear empregada por ele, que as pessoas pensavam que havia sido aberta uma cavidade na parede da Igreja de Santa Maria Novella , e ali fora erguida uma capela.

O artista pensou toda a cena, imaginando que o espectador a veria de baixo para cima, e criou um teto em arco, colunas e capitéis, mostrando a construção do espaço e das figuras bem modeladas, incrivelmente reais. Um espaço racional, com profundidade e realismo em uma pintura.

As figuras estão dispostas em uma composição piramidal e na parte inferior, um esqueleto repousa sobre um sarcófago com a inscrição "Aquilo que sou, vós também sereis".Mostrando a todos nós que a morte é inevitável.

As figuras pintadas com realismo por Masaccio , estão em um espaço concreto e mensurável, colocando um fim à concepção medieval da pintura, dando início a um novo período da história: O Renascimento ; a noção de que o home pode observar, entender e até certa medida, controlar o seu mundo, a serviço de Deus.

Sandra Honors



quarta-feira, 19 de março de 2014

Giotto


Giotto di Bondone mais conhecido simplesmente por Giotto - 1267 - 1337 foi um pintor e arquiteto, conhecido na história da arte pela introdução da perspectiva na pintura, durante o Renascimento.

Com Giotto, começamos a notar a substância corpórea das figuras retratadas, além da expressividade dos rostos e das mãos. São retratos verdadeiros capazes de expressar as nuances da alma humana. Uma novidade absoluta em relação às figuras planas e hieráticas da tradição estabelecida pela arte bizantina. Pela primeira vez na história as figuras pintadas são tratadas como massas sólidas, que lançam suas sombras dentro do espaço com profundidade tridimensional. Com Giotto, a pintura deixa de ser apenas uma imagem devocional, para se tornar uma narrativa. Eventos e passagens que ocorreram num tempo e lugar específicos, com paisagens bastante convincentes e uma arquitetura autêntica e habitável. Estas são as razões que o tornam Giotto um revolucionário com um lugar relevante e decisivo na história da arte ocidental.
O legado da arte de Giotto nos possibilita a compreensão do pensamento humanista que surgia durante o século XIV.
Em " a história de são Francisco de Assis" , este foi representado humanizado e não sobre-humano como era de costume representar as figuras sacras da época, onde a arte até então, era voltada para a religião, seguindo os moldes da arte bizantina: Uma imagem do santo centralizada, imóvel, e ao redor, pequenas cenas que contavam sua história. Ao contrário, Giotto em sua obra conta, narra a vida cotidiana de São Francisco.




Os personagens em sua obra não são todos iguais,como na tradição bizantina, mas sim, personagens individualizados, com expressão singular em seus rostos, na linguagem das mãos das figuras que se olham, que atuam, interagem.

Sandra Honors

terça-feira, 4 de março de 2014

Nastagio Degli Onesti



Decameron , uma coleção de cem novelas escritas por Boccaccio, entre 1348 e 1353.



É uma obra considerada um marco literário, onde mostra o período de transição vivido na Europa ao final da Idade Média, após o advento da Peste Negra.

Dez jovens , sendo sete moças e três rapazes, fogem das cidades tomadas pela peste que dizimava o continente Europeu e se recolhem em uma casa no campo. O Decameron, rompendo com a mítica literatura medieval é considerada a primeira obra realista da literatura.




Sandro Botticelli retratou Nastagio Degli Onesti, uma das histórias que integram o livro Decameron, a partir da oitava novela do quinto dia: "inferno amantes cruéis. " e dividiu-a em quatro passagens que considerou essenciais, elaborando um quadro para cada cena.








Primeira obra: O Encontro Com Os Amaldiçoados na Floresta de Pinheiros

Pintado em 1483, têmpera sobre tela e mede 0,83 por 1,38 m Está exposto no Museu do Prado.
Após ser rejeitado por sua amada, Nastagio perambula sozinho e triste em uma floresta de pinheiros para refletir. Subitamente, o jovem avista uma moça nua, perseguida por um cavaleiro e seus cães. Nastagio agarra um galho de árvore para tentar defender a moça.

Segunda obra: A Caçada Infernal

Pintado em 1483, têmpera sobre tela e mede 0,83 por 1,38 . Museu do Prado.

Desolado, Nastagio assiste à terrível cena em que a mulher é abatida e o cavaleiro arranca o seu coração e vísceras e entrega aos cães que as devoram. Em seguida, na cena ao centro e ao fundo da tela, podemos ver e o cavaleiro novamente perseguindo a mesma mulher, numa caçada sem fim. É a punição do cavaleiro, que o amor sem limites por sua amada, comete suicídio, assim como, uma punição para a jovem , que em vida fora cruel com seu amante, rejeitando-o.

Terceira obra: O Banquete na Floresta de Pinheiros

Pintado em 1483, têmpera sobre tela e mede 0,83 por 1,42 m . Museu do Prado
Nastagio arquiteta um plano: convida várias pessoas para um banquete no meio da floresta, para que todos testemunhassem a terrível caçada. Sua jovem amada, de branco, observa, desesperada o desenrolar da cena. Ela teme que venha a sofrer o mesmo destino da moça nua, pois também rejeitou o rapaz que a amava.Então, envia um emissário a Nastagio,( cena à direita no quadro), dizendo que concorda em casar-se com ele.

Quarta obra: O Banquete de Casamento

Pintado em 1483, têmpera sobre tela e mede 0,83 por 1,42 m . É o único dos quatro quadros que não faz parte do acervo do Museu do Prado, em Madri, pois pertence a um colecionador particular.
Neste, o banquete de casamento de Nastagio e sua amada é celebrado.
Os brasões familiares sugerem que o quadro foi pintado na ocasião de um casamento entre dois jovens de duas famílias de Florença, os Pucci e os Binni.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Madona na Floresta - Fra Felippo Lippi



A Madona na Floresta , concluída até 1459, pintura de Filippo Lippi . A Virgem Maria e o recém- nascido Menino Jesus deitado ao chão , num cenário, íngreme, escuro e arborizado . Não há pastores , reis, boi , burro , nem São José . Lippi remove toda uma gama de detalhes narrativos, comuns na temática da natividade e adoração de Jesus na época . Foi pintado para um dos homens mais ricos da Florença renascentista, o banqueiro Cosimo de Medici .
Florença na década de 1440 vivia um momento expansivo em sua história. Cosimo era o homem mais rico de Florença, um homem de poder , que ciente de ter levado uma vida pecaminosa . Tinha um filho bastardo e enriquecera emprestando dinheiro e cobrando juros , cometendo o pecado da usura , uma prática a ser punida pela eternidade no inferno .
Cosimo manda construir a primeira capela interna já feita em toda a Itália , como uma oferta de paz a Deus . Um lugar para Cosimo ajoelhar-se e fazer penitência. As paredes eram decoradas com afrescos extravagantes , incluindo um retrato de si mesmo .
Mas o coração da sala seria o retábulo - a Natividade. Para isso escolheu um artista famoso, o frade carmelita - Fra Filippo Lippi e o resultado foi um dos trabalhos mais inovadores e belas do Renascimento italiano .
A pintura foi um exemplo de definição de um novo gênero na arte - a adoração - onde o foco é Maria e o Menino Jesus . Baseada nas visões e nos ensinamentos de Santa Brígida da Suécia, onde Cristo, Deus feito homem é colocado entre as rochas , o próprio material do qual o nosso mundo foi feito .
Em vez de pastores e sábios , Lippi apresentou dois santos humildemente vestidos .
João Batista ,com a idade de 7 anos, quando sai de casa para levar uma vida austera no deserto. Aqui ele carrega um pergaminho que proclama em latim : Eis o Cordeiro de Deus. Acima dele , ajoelhado em oração e profunda meditação, o monge , Bernardo de Claraval , fundador da Ordem de Cister e profundo devoto da virgem. São Bernardo depois de laboriosas jornadas retirava-se para a cela para escrever obras cheias de otimismo e doçura, como o Tratado do Amor de Deus e o Comentário ao Cântico dos Cânticos que é uma declaração de amor a Maria. É também o compositor do belíssimo hino Ave Maris Stella. Também é sua a invocação: " Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria" da Salve-rainha".
Poucas pinturas sobre a Natividade tinham incluído a Santíssima Trindade - Deus Pai, Seu Filho, e o Espírito Santo, em formato de pomba . Era uma questão importante para Cosimo, que havia ajudado a resolver uma disputa teológica sobre a natureza da Trindade.
Mas a pintura também tem um lado mais sombrio . As flores silvestres que crescem a volta de Jesus menino, apesar de sua delicadeza, ocultam um fato: - Suas cinco pétalas representam as cinco chagas que Jesus receberá durante sua crucificação. No chão, um pintassilgo, pássaro que se alimenta de sementes do espinheiro , chamando a atenção para a coroa de espinhos na ocasião de seu sacrifício.

Além disso, há a paisagem inquietante . Não há o cenário tradicional do estábulo, mas uma densa floresta escura - " . Esta foi a inovação de Lippi e uma obsessão de Cosimo, a floresta em Camaldoli, leste de Florença, onde , no século XI  Romuald havia fundado um mosteiro , ao qual os Médici foram muito dedicados . Além disso, os monges derrubavam os altos pinheiros da floresta para fornecer madeira para as construções de Florença. Estas árvores caídas estão espalhadas através da pintura e lembravam também as palavras bíblicas de João Batista. "Agora está posto o machado até a raiz das árvores , e, no final , toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo" - uma evocação clara ao Juízo Final , ao fim dos tempos.
 Felippo Lippi optou por assinar a obra no cabo do machado , em um virtuoso escorço . No ano de 1459 o trabalho de Lippi foi concluído e a pintura colocado acima do altar particular de Cosimo . Quatro anos depois, Cosimo morreu . Uma década depois de terminar a Adoração Fra Filippo Lippi morreu .
Sandro Botticelli, aluno de Filippo Lippi , adotou seu estilo que também foi muito apreciado por Michelangelo. Logo, sua obra "a madona na floresta" tornou-se um dos quadros mais copiados do século XV.



http://youtu.be/H67yogB28-s