domingo, 1 de fevereiro de 2015

Gosto se discute? A Crítica da faculdade do Juízo, de Immanuel Kant






Na Crítica da faculdade do Juízo, de Immanuel Kant há duas afirmações , a princípio contraditórias, que assumem a forma de teses que se opõem: uma tese e uma antítese. É o que Kant denomina "antinomia do gosto".

A tese: "O juízo de gosto não se funda em conceitos, caso contrário, poderíamos disputar acerca da beleza". ( decidir por meio de demonstrações lógicas).

A antítese: " O juízo de gosto se funda em conceitos, caso contrário, não poderíamos sequer discutir a beleza."

Qual então o lugar da beleza?

É um conceito objetivo universalmente válido e necessário, ou, ao contrário, é algo subjetivo e que se funda apenas em inclinações pessoais, uma questão de âmbito privado e incomunicável?

Crítica para Kant, significa um exame do alcance e dos limites de nossos poderes cognitivos.

A "Crítica da razão Pura" fala sobre o conhecimento científico, necessário e Universal. Foi a primeira etapa do projeto sistemático de Kant visando a estabelecer a abrangência e os limites de nosso conhecimento, daquilo que podemos ou não conhecer; ou seja, trata-se de filosofia teórica voltada à teoria do conhecimento.

Em a "Crítica da razão prática", Kant analisa as condições de possibilidade para uma moral com pretensão universalista dos atos. Ele voltou-se imediatamente para moral, ou o conhecimento prático das leis que comandam as ações humanas e na capacidade que a razão tem de criar uma causa que, diferente do mundo mecânico natural, não depende de nenhuma causa anterior a ela. O ato livre não teria nenhum fator externo que o determinasse, É o fazer, pelo sentimento de dever que sou capaz de perceber e a necessidade de determinadas ações.

Em sua 3ª crítica, a "Crítica da faculdade do juízo",Kant fala sobre a possibilidade dos juízos estéticos, universais e necessários. Investiga os limites daquilo que podemos conhecer pela faculdade de julgar, que leva em consideração não apenas a razão, mas também a memória e os sentimentos.

Os enunciados de um juízo é o que é denominado, proposição ou premissa.

O juízo "a priori", é o conhecimento puro, que independe da experiência. Ele é essencial e se aplica a qualquer situação; já, o juízo "a posteriori" é dependente de uma experiência ou evidência empírica. Esses conhecimentos experimentais são os que nos fornecem sensações, conhecimentos que não podem ser separados de nossas impressões sensoriais. Mas eles não produzem juízos essenciais, que possam ser aplicados a qualquer situação.

Os juízos analíticos são aqueles em que os atributos fazem parte do próprio conceito. Por exemplo, na afirmação de que todos os corpos são extensos, a qualidade "extenso" já está contida no termo "corpo". Os juízos analíticos são típicos da tradição racionalista cartesiana, que construía a ciência com explicação dedutiva a partir de algumas verdades evidentes. Embora sejam "a priori" e possuam o mérito da indiscutibilidade, eles limitam-se à afirmações óbvias, não podendo construir a base de um conhecimento cognitivo.

Já os juízos sintéticos, mesmo que sejam fecundos em produzir novos conhecimentos, encontram em contrapartida a limitação e dependência de uma experiência concreta. Eles acrescentam predicados novos ao conceito. Mas a afirmação da existência de alguma coisa só é possível "a posteriori", ou seja, somente depois de ter passado pela experiência concreta. O predicado não é extraído do sujeito, mas pela experiência. Exemplo da afirmação de que "o corpo é pesado". Diferentemente da afirmação de que o corpo é extenso, onde o predicado está implícito no conceito "corpo", o fato de ser "pesado" não é um conhecimento subentendido no conceito, mas adquirido "a posteriori" , através da experiência. Essa afirmação "a posteriori" de que o corpo é pesado, agrega um conhecimento empírico, qual seja, o peso.Mas, a experiência é o único meio pelo qual esse conhecimento, esse predicado, pode ser obtido. Mas, para Kant, se podemos afirmar a existência de alguma coisa somente depois de ter passado pela experiência concreta, essa ciência não pode ser preditiva.

Para o filósofo, o racionalismo e o dogmatismo deram muita ênfase aos elementos apriorísticos, enquanto o empirismo , havia reduzido o conhecimento aos elementos experimentais "a posteriori".

Seria, pois necessário a formulação de uma abordagem do conhecimento, que ao mesmo tempo que tivesse certeza e universalidade dos juízos analíticos "a priori", não nos lançasse no terreno do dogmatismo. Uma abordagem híbrida, onde a sensibilidade e a fecundidade dos juízos sintéticos se somasse ao Entendimento .

Portanto, tais juízos teriam que ser conhecimento" sintético a priori", porque, uma vez suas leis estabelecidas pela observação, passam a ser universais e independentes da experiência.

A Crítica do Juízo, a terceira e última crítica de Kant, descreve dois tipos de juízos que constituem a faculdade de julgar: o determinante e o reflexionante. Os juízos reflexionantes são de dois tipos: os estéticos e os teleológicos.

Se de um lado temos um pensamento fundado em leis da razão e do entendimento, em regras que não variam de uma pessoa a outra, de uma cultura a outra, ou mesmo de uma época a outra, ou seja, um conhecimento fundado em princípios universalmente válidos e necessários, por outro lado, temos um empirismo estético não racionalista, onde ao dizer "esta rosa é bela" , traduzo apenas num juízo um senti­mento de prazer que acompanha essa contemplação.

Assim, o juízo estético é reflexionante, porque descreve aquilo que o sujeito sente. A beleza não é uma coisa nem uma propriedade das coisas. É um sentimento que é vivido no interior do sujeito e do qual este tem consciência.

O juízo estético é igualmente a expressão de um sentimento de prazer puro e desinteressado; o sentimento do belo nada tem a ver com a fa­culdade de desejar, ou com a vontade. Dizer que algo é belo é diferente de dizer que é agra­dável. Não julgo algo belo por necessidade, por um desejo de posse.
O agradável, sempre possui  alguma relação de desejo com o objeto qualificado de belo.

O prazer desinteressado significa que o sujeito que faz um julgamento estético sobre um objeto não tem nenhuma necessidade de possuir ou consumir esse objeto, ou seja, o objeto não desperta qualquer desejo no sujeito que o contempla.

Segundo Kant, para nos pronunciarmos sobre a qualidade estética de alguma coisa, para julgarmos se algo é belo ou não, devemos contemplá-lo abstraindo de nossa consideração, qualquer possí­vel utilidade, inutilidade e também , qualquer noção de moralidade. O juízo estético é radicalmente di­ferente de qualquer juízo ligado a um interesse.

Enquanto su­jeito estético acolho a livre manifestação do objeto e digo simplesmente o que sinto, o que se passa em mim. Assim, juízo de gosto é subjetivo. Contudo, este juízo pretende ser universalmente comunicável. O juízo esté­tico é subjetivamente universal, pois quando eu digo que algo é belo eu pretendo traduzir um sentimento que se verifica em mim, mas que também deve ocorrer nos outros sujeitos, pois meu juízo não se baseia em inclinações ou interesses particulares e pessoais. Assim, acredito que posso julgar-me no di­reito de que os outros reconheçam também a beleza do objeto e experimentem o tipo de satisfação que eu sinto.

Quando contemplo uma paisagem e sinto um prazer puro e desinteressado nessa con­templação, meu entendimento traduz essa experiência formulando um juízo: "Esta paisagem é bela."O conceito de beleza unicamente exprime um sentimento, mas não o explica, porque se isso acontecesse a experiência já não seria estética mas de conhecimento.  A universalidade do juízo acerca da beleza não é baseado em conceitos. Ou seja, quando alguém propõe compartilhar o sentimento de beleza, não pretende convencer os outros por meio da subsunção desse objeto (singular) em um conceito (universal.)

 Nas palavras de Pedro Costa Rego,temos o direito de candidatar nossa avaliação estética a um estatuto de juízo universalmente válido. Há um fundamento no sujeito para isso. Mas, jamais deixará o belo de ser uma universalidade subjetiva, uma universalidade meramente reivindicada.

Como o juízo estético tem de ser ex­pressão de um prazer puro ou desinteressado, que não submete o objeto a nenhum desejo, interesse ou fim, também a sua finalidade só pode ser uma "finalidade sem fim". O valor-em-si do juízo estético pressupõe um prazer desinteressado, portanto não finalista.

 E finalizando com as palavras de Luc Ferry: Homo aestheticus: a invenção do gosto na era democrática, “A solução da antinomia do gosto encontra aqui sua explicação e seu significado. Contrariamente ao que afirma o racionalismo clássico, o juízo de gosto não se fundamenta em conceitos (regras) determinados: portanto, torna-se impossível ‘disputar’ acerca dele como se tratasse de um juízo de conhecimento científico. No entanto, ele não se limita a remeter à pura subjetividade empírica do sentimento, porque se baseia na presença de um objeto, que se é belo (...), desperta uma ideia necessária da razão que é, enquanto tal, comum à humanidade. Portanto, é em referência a essa ideia determinada (..) que é possível ‘discutir’ o gosto e ampliar a esfera da subjetividade pura para visar uma partilha não dogmática da experiência estética com outrem enquanto outro homem”



Fontes:

Kant- Crítica da Faculdade do Juízo 
Kant - Crítica da Razão Pura

Georges Pascal - Compreender Kant

Pedro Costa Rego - Palestra proferida no Seminário Internacional do Vale do Rio Doce

Textos diversos ( Internet), anotações de aulas e resumos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

XXVIII Mostra de Arte Da Granja Viana





XXVIII Mostra de Arte Da Granja Viana


Centro Brasileiro Britânico - Rua Ferreira de Araújo, 741 - Pinheiros - SP de 27 de julho à 17 de agosto

A artista plástica e curadora do departamento de Arte e Cultura da Associação Desportiva e Cultural Atletas do Bem, Sandra Honors  participou da "XXVII Mostra de Arte da Granja Viana, no Centro Brasileiro Britânico.
Participam também da mostra os artistas Shoko Suzuki, Kenichi Kaneko, Bia Black, Daniel Spalato, Fritz Berg, Giuliano Bianchi, Paulo Nunes, Rosely Epsztein e Simon Abuhab,e os amigos dos Atletas do Bem, Giuseppe Ranzini,   Sylvia Moore, Silvana Borges, Angela Espínola, Selma Craveiro, Ana Bittar, além de outros talentosos artistas.
Ao todos, são 150 obras de 76 artistas plásticos.
As peças – telas, desenhos, gravuras, esculturas e peças de cerâmicas – 1/3 do valor arrecadado com as vendas será revertido para a associação beneficente de assistência social Vida – Casa de Apoio, que atende anualmente cerca de 68 mil pessoas carentes de Cotia, na Grande São Paulo.


Abner Escher,Roberto Losada,Sandra Honors e Hamilton Dorigatti

Amigos dos atletas do Bem prestigiando a mostra

A artista Sandra Honors e amigos

A artista com amigas queridas que prestigiaram o evento

Recebendo certificado de participação

Sandra Honors junto às obras de Sylvia Moore
Paulo Byron e Sandra Honors junto às obras de Silvana Borges
Giuseppe Ranzini e Angela Espínola e obras de Angela
Sandra Honors junto às obras de Silvanan Borges
Sylvia Moore e suas obras
Selma Craveiro junto às suas obras
Artista Giuseppe Ranzini e Roberto Losada junto às obras do artista
Artista Giuseppe Ranzini e amigos, junto às obras do artista
Silvana Borges junto às suas obras
Obras de Ana Bittar
A artista Ana Bittar e Hamilton Dorigatti junto às obras de Ana
Convite da Mostra
Banner da mostra

Obras da artista Sandra Honors


























quinta-feira, 22 de maio de 2014

O que é Arte?

Eu não sei o que é Arte, e se algum dia conseguiremos chegar a um conceito que convença e agrade a todos.
Mas, esse vídeo chegou perto demais de responder essa pergunta.
Pra mim a Arte deveria significar algo assim, como, inspiração, pontes sendo construídas, rompendo barreiras e abismos!
A realidade sendo constantemente desafiada e convidada a brincar de faz de conta! Tantas e tantas vezes, que de repente, nem ela mesma saberia a diferença entre o que a vida é e o que poderia ser! Real ou imaginária, o que é mesmo a Vida?


sexta-feira, 21 de março de 2014

Masaccio



Masaccio:

Tomaso di Giovanni, conhecido como Masaccio (1401 – 1428) foi um grande pintor renacentista.

Um artista revolucionário por suas novas concepções de espaço, onde figuras intensamente modeladas pelo "claro-escuro", dotadas de volume e de realismo, ocupam igualmente um espaço real, concreto e mensurável. Razão pela qual, Masaccio ocupa um lugar decisivo na história da arte ocidental.

A Trindade é um dos mais famosos afrescos de Masaccio e encontra-se na igreja de Santa Maria Novella , em Florença. A obra, provavelmente executada em 1427, representa a coquista de sua plena maturidade artística, realizada pouco antes de sua morte prematura em Roma, em 1428.

O tema da pintura é a Santíssima Trindade: Deus, o Espírito Santo - na forma de uma pomba e Cristo. É visível o seu sofrimento e ao mesmo tempo é impressionante a representação de seu corpo e de sua gravidade , preso na cruz. Ao lado da cruz, Virgem Maria, retratada como uma mulher madura, apontando para Cristo, a salvação dos homens; do outro lado encontra-se João Batista. Fora do espaço sagrado, num plano mais abaixo , de joelhos, os patronos. ( os que pagaram ao pintor para realização da obra); os doadores como testemunhas da crucificação.

O artista aplica as regras da perspectiva científica na pintura . Ficamos imediatamente fascinados pela incrível profundidade espacial da arquitetura, numa visão tridimensional nunca antes realizada sobre uma superfície plana, tal como uma parede .

Ele utilizou várias técnicas de perspectiva para dar ao espectador a ilusão de que a cena era real. Quando Masaccio pintou o afresco , tamanha era a perfeição do uso da perspectiva linear empregada por ele, que as pessoas pensavam que havia sido aberta uma cavidade na parede da Igreja de Santa Maria Novella , e ali fora erguida uma capela.

O artista pensou toda a cena, imaginando que o espectador a veria de baixo para cima, e criou um teto em arco, colunas e capitéis, mostrando a construção do espaço e das figuras bem modeladas, incrivelmente reais. Um espaço racional, com profundidade e realismo em uma pintura.

As figuras estão dispostas em uma composição piramidal e na parte inferior, um esqueleto repousa sobre um sarcófago com a inscrição "Aquilo que sou, vós também sereis".Mostrando a todos nós que a morte é inevitável.

As figuras pintadas com realismo por Masaccio , estão em um espaço concreto e mensurável, colocando um fim à concepção medieval da pintura, dando início a um novo período da história: O Renascimento ; a noção de que o home pode observar, entender e até certa medida, controlar o seu mundo, a serviço de Deus.

Sandra Honors



quarta-feira, 19 de março de 2014

Giotto


Giotto di Bondone mais conhecido simplesmente por Giotto - 1267 - 1337 foi um pintor e arquiteto, conhecido na história da arte pela introdução da perspectiva na pintura, durante o Renascimento.

Com Giotto, começamos a notar a substância corpórea das figuras retratadas, além da expressividade dos rostos e das mãos. São retratos verdadeiros capazes de expressar as nuances da alma humana. Uma novidade absoluta em relação às figuras planas e hieráticas da tradição estabelecida pela arte bizantina. Pela primeira vez na história as figuras pintadas são tratadas como massas sólidas, que lançam suas sombras dentro do espaço com profundidade tridimensional. Com Giotto, a pintura deixa de ser apenas uma imagem devocional, para se tornar uma narrativa. Eventos e passagens que ocorreram num tempo e lugar específicos, com paisagens bastante convincentes e uma arquitetura autêntica e habitável. Estas são as razões que o tornam Giotto um revolucionário com um lugar relevante e decisivo na história da arte ocidental.
O legado da arte de Giotto nos possibilita a compreensão do pensamento humanista que surgia durante o século XIV.
Em " a história de são Francisco de Assis" , este foi representado humanizado e não sobre-humano como era de costume representar as figuras sacras da época, onde a arte até então, era voltada para a religião, seguindo os moldes da arte bizantina: Uma imagem do santo centralizada, imóvel, e ao redor, pequenas cenas que contavam sua história. Ao contrário, Giotto em sua obra conta, narra a vida cotidiana de São Francisco.




Os personagens em sua obra não são todos iguais,como na tradição bizantina, mas sim, personagens individualizados, com expressão singular em seus rostos, na linguagem das mãos das figuras que se olham, que atuam, interagem.

Sandra Honors

terça-feira, 4 de março de 2014

Nastagio Degli Onesti



Decameron , uma coleção de cem novelas escritas por Boccaccio, entre 1348 e 1353.



É uma obra considerada um marco literário, onde mostra o período de transição vivido na Europa ao final da Idade Média, após o advento da Peste Negra.

Dez jovens , sendo sete moças e três rapazes, fogem das cidades tomadas pela peste que dizimava o continente Europeu e se recolhem em uma casa no campo. O Decameron, rompendo com a mítica literatura medieval é considerada a primeira obra realista da literatura.




Sandro Botticelli retratou Nastagio Degli Onesti, uma das histórias que integram o livro Decameron, a partir da oitava novela do quinto dia: "inferno amantes cruéis. " e dividiu-a em quatro passagens que considerou essenciais, elaborando um quadro para cada cena.








Primeira obra: O Encontro Com Os Amaldiçoados na Floresta de Pinheiros

Pintado em 1483, têmpera sobre tela e mede 0,83 por 1,38 m Está exposto no Museu do Prado.
Após ser rejeitado por sua amada, Nastagio perambula sozinho e triste em uma floresta de pinheiros para refletir. Subitamente, o jovem avista uma moça nua, perseguida por um cavaleiro e seus cães. Nastagio agarra um galho de árvore para tentar defender a moça.

Segunda obra: A Caçada Infernal

Pintado em 1483, têmpera sobre tela e mede 0,83 por 1,38 . Museu do Prado.

Desolado, Nastagio assiste à terrível cena em que a mulher é abatida e o cavaleiro arranca o seu coração e vísceras e entrega aos cães que as devoram. Em seguida, na cena ao centro e ao fundo da tela, podemos ver e o cavaleiro novamente perseguindo a mesma mulher, numa caçada sem fim. É a punição do cavaleiro, que o amor sem limites por sua amada, comete suicídio, assim como, uma punição para a jovem , que em vida fora cruel com seu amante, rejeitando-o.

Terceira obra: O Banquete na Floresta de Pinheiros

Pintado em 1483, têmpera sobre tela e mede 0,83 por 1,42 m . Museu do Prado
Nastagio arquiteta um plano: convida várias pessoas para um banquete no meio da floresta, para que todos testemunhassem a terrível caçada. Sua jovem amada, de branco, observa, desesperada o desenrolar da cena. Ela teme que venha a sofrer o mesmo destino da moça nua, pois também rejeitou o rapaz que a amava.Então, envia um emissário a Nastagio,( cena à direita no quadro), dizendo que concorda em casar-se com ele.

Quarta obra: O Banquete de Casamento

Pintado em 1483, têmpera sobre tela e mede 0,83 por 1,42 m . É o único dos quatro quadros que não faz parte do acervo do Museu do Prado, em Madri, pois pertence a um colecionador particular.
Neste, o banquete de casamento de Nastagio e sua amada é celebrado.
Os brasões familiares sugerem que o quadro foi pintado na ocasião de um casamento entre dois jovens de duas famílias de Florença, os Pucci e os Binni.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Madona na Floresta - Fra Felippo Lippi



A Madona na Floresta , concluída até 1459, pintura de Filippo Lippi . A Virgem Maria e o recém- nascido Menino Jesus deitado ao chão , num cenário, íngreme, escuro e arborizado . Não há pastores , reis, boi , burro , nem São José . Lippi remove toda uma gama de detalhes narrativos, comuns na temática da natividade e adoração de Jesus na época . Foi pintado para um dos homens mais ricos da Florença renascentista, o banqueiro Cosimo de Medici .
Florença na década de 1440 vivia um momento expansivo em sua história. Cosimo era o homem mais rico de Florença, um homem de poder , que ciente de ter levado uma vida pecaminosa . Tinha um filho bastardo e enriquecera emprestando dinheiro e cobrando juros , cometendo o pecado da usura , uma prática a ser punida pela eternidade no inferno .
Cosimo manda construir a primeira capela interna já feita em toda a Itália , como uma oferta de paz a Deus . Um lugar para Cosimo ajoelhar-se e fazer penitência. As paredes eram decoradas com afrescos extravagantes , incluindo um retrato de si mesmo .
Mas o coração da sala seria o retábulo - a Natividade. Para isso escolheu um artista famoso, o frade carmelita - Fra Filippo Lippi e o resultado foi um dos trabalhos mais inovadores e belas do Renascimento italiano .
A pintura foi um exemplo de definição de um novo gênero na arte - a adoração - onde o foco é Maria e o Menino Jesus . Baseada nas visões e nos ensinamentos de Santa Brígida da Suécia, onde Cristo, Deus feito homem é colocado entre as rochas , o próprio material do qual o nosso mundo foi feito .
Em vez de pastores e sábios , Lippi apresentou dois santos humildemente vestidos .
João Batista ,com a idade de 7 anos, quando sai de casa para levar uma vida austera no deserto. Aqui ele carrega um pergaminho que proclama em latim : Eis o Cordeiro de Deus. Acima dele , ajoelhado em oração e profunda meditação, o monge , Bernardo de Claraval , fundador da Ordem de Cister e profundo devoto da virgem. São Bernardo depois de laboriosas jornadas retirava-se para a cela para escrever obras cheias de otimismo e doçura, como o Tratado do Amor de Deus e o Comentário ao Cântico dos Cânticos que é uma declaração de amor a Maria. É também o compositor do belíssimo hino Ave Maris Stella. Também é sua a invocação: " Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria" da Salve-rainha".
Poucas pinturas sobre a Natividade tinham incluído a Santíssima Trindade - Deus Pai, Seu Filho, e o Espírito Santo, em formato de pomba . Era uma questão importante para Cosimo, que havia ajudado a resolver uma disputa teológica sobre a natureza da Trindade.
Mas a pintura também tem um lado mais sombrio . As flores silvestres que crescem a volta de Jesus menino, apesar de sua delicadeza, ocultam um fato: - Suas cinco pétalas representam as cinco chagas que Jesus receberá durante sua crucificação. No chão, um pintassilgo, pássaro que se alimenta de sementes do espinheiro , chamando a atenção para a coroa de espinhos na ocasião de seu sacrifício.

Além disso, há a paisagem inquietante . Não há o cenário tradicional do estábulo, mas uma densa floresta escura - " . Esta foi a inovação de Lippi e uma obsessão de Cosimo, a floresta em Camaldoli, leste de Florença, onde , no século XI  Romuald havia fundado um mosteiro , ao qual os Médici foram muito dedicados . Além disso, os monges derrubavam os altos pinheiros da floresta para fornecer madeira para as construções de Florença. Estas árvores caídas estão espalhadas através da pintura e lembravam também as palavras bíblicas de João Batista. "Agora está posto o machado até a raiz das árvores , e, no final , toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo" - uma evocação clara ao Juízo Final , ao fim dos tempos.
 Felippo Lippi optou por assinar a obra no cabo do machado , em um virtuoso escorço . No ano de 1459 o trabalho de Lippi foi concluído e a pintura colocado acima do altar particular de Cosimo . Quatro anos depois, Cosimo morreu . Uma década depois de terminar a Adoração Fra Filippo Lippi morreu .
Sandro Botticelli, aluno de Filippo Lippi , adotou seu estilo que também foi muito apreciado por Michelangelo. Logo, sua obra "a madona na floresta" tornou-se um dos quadros mais copiados do século XV.



http://youtu.be/H67yogB28-s

As tentações de Cristo - Sandro Botticelli







As Tentações de Cristo




Sandro Botticelli



Um afresco, encomendado a Botticelli pelo Papa Sisto IV para a capela do conclave, que se veio a chamar Capela Sistina, precisamente pelo fato de ter sido esse Papa que a mandou construir.
As três tentações de Cristo integram-se na Cena do Sacrifício Judeu. À esquerda de quem olha, ao fundo alto, vemos a tentação do pão; na cena do meio, a tentação no pináculo do templo, tentação do triunfo e da glória; à direita, a tentação das riquezas e do domínio sobre os reinos da Terra.
Interessante é o fato de o pintor as ter enquadrado na cena do Sacrifício Judaico, que diariamente se realizava diante do templo de Salomão. Observamos o Sumo Sacerdote, diante do fogo, recebendo uma taça cheia de sangue, enquanto outras pessoas levam animais (galinhas, numa bacia, ao fundo, do lado esquerdo) lenha (figura feminina, de branco, com um molho à cabeça), cacho de uvas (a criança, à frente desta última figura feminina).




O sentido do quadro parece evidente: o mundo será salvo, não pela abundância de comida (o pão), nem pelo espetáculo da glória (pináculo) nem pelo poder e riquezas deste mundo (3ª tentação). O verdadeiro sacrifício salvador é o do corpo e sangue de Cristo, prefigurado na carne dos animais sacrificados e no vinho das uvas trazidas pela criança. O próprio Cristo, rodeado de quatro anjos, logo abaixo da cena da primeira tentação, parece explicar o sentido da cena.
Na primeira tentação, vemos o demônio apontando as pedras. Como é próprio da tentação, aparece disfarçada de bem. Assim, o demônio veste hábito de monge eremita e empunha umas contas na mão esquerda, fazendo pensar que é um homem de oração. O fato de ter barbas brancas e se apoiar num bordão significa que é um monge idoso, portanto homem de virtude provada. Este tipo de disfarce tem atrás de si uma tradição iconográfica medieval.




A verdadeira natureza do demônio revela-se, porém, quer nas patas de ave de rapina, quer nas asas de morcego que lhe nascem das costas. No bestiário demoníaco, o morcego é um dos animais que mais frequentemente simboliza o demônio. Como se oculta nas cavernas, donde apenas sai de noite, parece ter-se prestado, melhor que nenhum outro animal, para representar o Príncipe das Trevas. Esse simbolismo é tanto mais evidente quanto, por oposição, a imagem de Cristo se encontra envolvida por uma auréola de luz que irradia da cabeça e das costas, em oposição às asas negras que saem das costas do demônio.




Na terceira tentação, contudo, ao fundo alto, do lado direito, enquanto Cristo mantém os atributos luminosos, o demônio revela a sua verdadeira natureza. Deixa cair o bastão e perde o hábito monacal, mostrando então o corpo animalesco recoberto de pelos. O fato de apresentar cauda leva-nos a interpretar a figura como combinação de morcego (asas), águia (patas) e leão (cauda e pelos). O leão pode representar Cristo, mas também o demônio, simbolismos que já vem do Antigo Testamento (Sansão e David lutam com leões e matam-nos. Recorde-se também o versículo do salmo 21 “Salva-me da boca do leão”). Este último é o simbolismo dos leões antropófagos de muitas igrejas românicas. Para o confirmar, nem precisamos de sair de Braga. Basta observar a decoração que se encontra na base da pia batismal da Sé de Braga, onde leões devoram as crianças que não forem batizados.




Luís da Silva Pereira, Professor de Arte Sacra e de Iconografia

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O Belo - Sócrates, Platão e Aristóteles





Entre os gregos existiam três acepções fundamentais  acerca do Belo:

 O Belo em termos estéticos - Inseparável da medida e contenção, onde a qualidade dos elementos, como os sons e as cores agradáveis, a regularidade das figuras geométricas e das formas abstratas - como simetria e proporções definidas, de maneira harmoniosa e adequada aos sentidos -  seria tudo aquilo que é agradável à vista e aos ouvidos;   sentidos estes  de natureza intelectual, mais próximos da verdadeira essência da alma, que assim é afetada moderadamente.
O prazer  estético de ordem superior, se contrapondo ao prazer físico, que sendo ilimitado leva ao desequilíbrio e insatisfação permanentes.

O Belo em termos moral - Diz respeito às almas equilibradas, em perfeita harmonia, ocupando o meio termo entre a virtude e o vício, a real medida do Belo.

O Belo em termos espirituais - a verdade alcançada através do conhecimento teórico, que uma vez conquistada possui a própria Beleza, a própria essência do Belo.

As Artes estariam dentro da concepção do Belo estético, subordinada, portanto, às outras duas concepções de beleza; a moral e a intelectual.
A beleza estética acalmando as paixões criam uma predisposição para a prática das virtudes, favorecendo o objetivo moral da Beleza, que seria a moderação e a prática das belas ações, que levam ao belo espiritual, a forma mais elevada de beleza.
Somente uma alma capaz de realizar belas ações, dedicada à vida contemplativa pode ascender à verdadeira beleza do Ser.

Na obra "O Banquete", Platão descreve o percurso  do amor em direção à Beleza ética e moral, um meio pelo qual podemos chegar ao  Bem e ao Belo e demais virtudes.
Somente depois de ultrapassarmos o amor primário e vil é que nos tornamos aptos para amar as almas e não os corpos  e assim,  atingimos  o Belo supremo, a verdadeira Beleza.

Sócrates afirmava que nada escapa às imperfeições. Para que o artista reproduzisse coisas belas, próximas do ideal de Belo, teria que recorrer à reunião de várias belezas espalhadas na Natureza.
A Beleza ideal como a reunião dos fragmentos que compõem a Natureza caminhando no sentido da desordem para a ordem. Para que encontremos a Beleza é necessário caminhar pela estrada do conhecimento.

Para os filósofos gregos, a poesia, a pintura, a escultura e até mesmo a música eram consideradas Artes miméticas.

A mimese em Sócrates foi objeto de reflexão, documentada por Xenofonte, durante uma rápida conversa com o pintor Parrásio e o escultor Cleito.
Ele conclui que quando o pintor e escultor reproduzem a aparência exterior dos corpos será preciso que o artista reúna as partes belas de vários objetos da mesma espécie para que forme então, algo perfeito.
Se o artista pode reconhecer as coisas que são belas, associando as partes entre si num modelo ideal, isso prova que já existe em sua mente a ideia de Beleza, e na verdade, o pintor e escultor não imitam o modelo, mas sim, o idealizam.

Para Platão, o pintor e escultor imitam as coisas do  mundo, que por sua vez já são cópias do mundo supra sensível, sendo assim, inconsistentes e ilusórias as suas obras. As Artes apenas imitam as coisas do mundo sensível, reproduzindo não mais do que apenas a aparência, uma simulação de uma realidade que não possuem.

Em relação à música, Platão relaciona determinados modos harmônicos com sentimentos específicos, qualificando os ritmos com uma escala de atitudes. Existem ritmos que imitam a baixeza e desregramento, assim como harmonias que são patéticas, melancólicas, outras ainda, entusiásticas, energéticas e marciais.
A música exteriorizando afetos e sentimentos humanos. Uma imitação de um conteúdo psíquico e moral, através das combinações de sons.

Para Aristóteles não haveria nenhum sentido a simples cópia ou duplicação de uma imagem de um ser individual. 
A mímese artística seria um prolongamento de uma tendência à imitação, natural aos homens e animais, decorrente da necessidade de adquirir experiência, de aprender e conhecer, que pressupõe o uso do intelecto, uma vez que para imitar é necessário imaginar e comparar.

Assim, o artista não deve reproduzir traço a traço todas as peculiaridades  do que está representando, mas sim,  as características gerais, inclusive acrescentando tudo que falte à coisa para que esta seja  o exemplar de sua espécie ou categoria.
Assim, o artista não imita o individual ou as coisas como são, mas como devem ser, conforme os fins que a Natureza se propõe a alcançar.

Aristóteles usa o termo Verossimilhança, aceitando a aparência não como algo completamente real, nem como ilusão. Se a Natureza  tem falhas, imperfeições e deficiências, a Arte tem condições de  eliminar e corrigir esses erros.
O prazer proporcionado pela imitação se deve à semelhança da obra com a realidade, assim como, pela beleza intrínseca da obra, resultado da maestria com a qual foi concebida e executada.

Para Aristóteles, a "mimesìs" seria a representação obtida de acordo com as regras da adequação. Se um retrato for idêntico ao modelo, é verdadeiro, pois é adequado.
O prazer estético se deve ao fato de que a obra de arte nos leva a um raciocínio , onde fazemos comparações do retrato com o modelo - independente desse modelo representado ser belo ou feio; o que nos importe é o reconhecimento intelectual desta relação mimética.  

A imitação também se estende às coisas desagradáveis à vista, repelentes e ameaçadoras, que através da Arte sofrem uma transfiguração em seu aspecto natural, tornando-se atraentes. É que o Belo na Arte não coincide com a beleza exterior dos objetos representados, mas sim, com a maneira de representar as coisas ou ações, a natureza e o homem.


Em sua poética Aristóteles diz que a epopeia  a tragédia, a comédia e certas espécies de música instrumental e de canto, a dança e a pintura têm por essência comum imitar a realidade natural e humana.
As representações imitativas na poesia retratam, com palavras e por intermédio de atores, homens em ação, sendo que a tragédia ocupa-se dos bons e nobres e a comédia dos maus e vis. A epopeia imita utilizando-se da narrativa.
O efeito catártico da tragédia estende sua influência ao plano moral da vida, neutralizando os sentimentos excessivos, estabelecendo um novo sentimento harmonioso e equilibrado. 



Sandra Honors
Fontes:  Introdução à filosofia da Arte - Benedito Nunes.
               A Obra de Arte - Ensaio sobre a ontologia das obras - Michel Haar